O feminismo “business” não me representa

CEO

“Ele me perguntou qual a minha posição preferida, eu respondi: CEO.” Essa frase é propagada por feministas na internet, como resposta aos homens que só enxergam as mulheres pelo olhar sexualizado. O recado é que trocamos a posição sexual pela posição de líderes de grandes empresas, assim como é fácil encontrar palavras de ordem que inspiram mulheres a serem chefes, perseguirem os altos cargos em suas carreiras e ganharem destaque como empresárias, na contramão das expectativas de algumas décadas atrás que encerravam o destino feminino no espaço privado.

O cenário justifica esse tipo de ativismo: nunca houve tantas mulheres em cargos de nível hierárquico superior, mas os salários continuam inferiores se comparados aos homens em mesma condição. O caminho também é mais difícil, elas precisam provar duplamente sua competência, conciliar responsabilidades do trabalho com os papéis de esposa e mãe e reproduzir a “masculinidade” típica e agressiva do corporativismo. Com um porém: “Elas” são as mulheres de classe média e alta, a minoria, em contraste com o fenômeno de feminização da pobreza que aumenta no país.

Enquanto as grandes revistas femininas vendem o “feminismo business” entrevistando líderes poderosas de Louboutin, cresce o número de domicílios chefiados por mulheres na periferia. Elas são abandonadas pelos companheiros e se tornam responsáveis pela criação dos filhos, muitas vezes recebendo salários precários em subempregos – quando conseguem a vaga, já que o mercado de trabalho discrimina mulheres grávidas e mães.”Foi difícil vencer o machismo para chegar onde cheguei”, afirma a nova vice-diretora de uma multinacional, contando no parágrafo seguinte como confia no trabalho da sua empregada doméstica e da babá. A ascensão dessas mulheres só é possível transferindo o trabalho doméstico para suas semelhantes de classe menos favorecida, em sua maioria negras e periféricas, uma clara herança escravocrata da elite brasileira.

POWRFUL

As mulheres que realmente precisam do feminismo para sobreviver, para vencer uma jornada tripla exaustiva que inclui horas no transporte público, um emprego mal-remunerado, acúmulo das tarefas domésticas e cuidado da família, aparecem em uma ou duas linhas da matéria inspiradora sobre a trajetória de uma mulher de negócios. Líder nata, ao lado dos homens mais importantes, impecável no seu tailleur Chanel e bolsa Prada, orgulhosa dos resultados do último ano que dobraram os lucros da companhia, essa mulher ocupa um lugar de poder antes exclusivamente masculino – mas esse é um avanço feminista?

Já assumimos que a mulher não é sujeito universal, que várias intersecções de classe, etnia/raça, orientação sexual e outras especifidades precisam ser reconhecidas. O patriarcado permanece como a estrutura sistemática que hierquiza os gêneros, legitimando a opressão do homem sobre a mulher, mas as mulheres experimentam essa opressão em realidades muito diversas. Não afirmo que a mulher bem-sucedida não sofra machismo, porque sofre, mas também reproduz opressão sobre outras mulheres e se apropria de privilégios tipicamente masculinos. A lógica das corporações é produto da mente masculina, o poder é historicamente masculino, logo, para crescer em um território de homens, é preciso se adaptar à dinâmica hierárquica e exploradora que mantém a engrenagem do capitalismo.

Chamo de “feminismo business” esse apelo à tomada dos lugares de poder pelas mulheres sem criticá-los, a repetição da mesma fórmula que produz desigualdades em toda a sociedade, a celebração de algumas mulheres líderes em um sistema que oprime todas as outras. Acredito em um feminismo que transforme os lugares de poder e não somente divida a mesa de reunião igualmente entre homens e mulheres. Sim, reivindico um feminismo libertário, que não se contenta com o empoderamento da mulher branca de classe média, ainda mais reproduzindo a construção da masculinidade competitiva, agressiva e dominadora. Se bastasse ser mulher no poder, Tatcher seria um grande exemplo de admiração – a mulher que afirmava que a sociedade não existia, apenas famílias nucleares, a dama de ferro do neoliberalismo.

STANFORD

Me preocupa que tomem como exemplo feminista uma CEO (Chief Executive Officer) voraz por lucros, uma acionista implacável, uma executiva no topo da hierarquia que explora o trabalho de milhares de pessoas – muitas delas mulheres em cargos precarizados. Quando dizemos que feminismo é sobre “igualdade entre os gêneros”, não estamos querendo apenas que as mulheres conquistem seu espaço pré-determinado em um mundo construído por homens, baseado no conceito de masculinidade (competição, autoridade, abuso), queremos que as mulheres TRANSFORMEM esse mundo. Como sujeitas inferiorizadas na história da humanidade, o famoso “segundo sexo”, nos empoderamos através do feminismo para desconstruir e reafirmar o que significa “ser mulher”, especialmente ser mulher trabalhadora, negra, periférica, bissexual,lésbica, trans, indígena – as identidades mais vitimadas pelo apagamento e opressão.

O exemplo da mulher corporativista bem-sucedida é constantemente encorajado pela mídia hegemônica, justamente porque ele serve ao modelo patriarcal e capitalista ideal. A heroína do neoliberalismo é “multi-tarefas”, aliada ao marido que também é do universo business, concilia sua carreira brilhante com a administração do trabalho doméstico feita por mulheres mais vulneráveis, cumpre seu papel de esposa atraente e bem-resolvida sexualmente (leia-se, treinada pelos tutoriais de como agradar seu homem na cama da revista Nova), consome moda, arte e cultura e ainda consegue ser mãe (ou patroa da babá, normalmente). E essa mulher também consome feminismo, aquele que já aparece nos workshops de grandes tendências do mercado: mulheres no poder, liberdade para vestir o modelito mais polêmico da grife, autonomia para dar a última palavra na reunião, desenvoltura para comprar uns brinquedinhos na boutique erótica.

CapitalismAndTheExploitationOfWomen

Cooperação, cuidado, empatia, respeito e sensibilidade sempre foram valores atribuídos às mulheres, de forma arbitrária. Mas para além da construção da feminilidade, são valores que deveriam ser prioritários para qualquer ser humano, independentemente do gênero. São diretrizes para a transformação social, por um mundo mais justo e humano, daí a importância das mulheres nos movimentos sociais e sua contribuição histórica nos processos revolucionários. Meu feminismo evoca esses valores e combate a ideologia dominante, recusa as instituições e a tirania típica do que foi determinado como “masculino”, perfeitamente representadas pelo universo “business”.

Não seremos as próximas “patroas”. Por um feminismo com consciência de classe, capaz de enxergar além do próprio umbigo e reconhecer as demandas de todas as mulheres. Por um feminismo popular de fato, que revolucione, que conteste as estruturas de poder, que crie novas formas de expressão e identificação no feminino, que destrua todos os estereótipos e rejeite o status quo. Por um feminismo insurrecionário de fato, não um novo lifestyle na vitrine pronto para ser consumido ou uma geração de mulheres brancas workaholics orgulhosas do prestígio no escritório. Mais auto-organização, menos corporação.

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Manifesto feminista pelo romance pervertido

Há nem tanto tempo assim, cometeram o disparate de separar o sexo do amor. Demonizaram o tesão e santificaram o amor recatado, criando a oposição “fazer amor” versus “putaria” – tudo pela família patriarcal. O mundo avançou desde então, mas a tal Revolução Sexual dos anos 60 não foi suficiente pra libertar o corpo e a mente, não garantiu o direito à libido feminina e nem discutiu a questão da afetividade. Em pleno 2016, é normal a trepada na novela das 9 e o close na bunda, mas os homens ainda insistem no abismo entre sexualidade e afeto, separando mulheres entre santas e putas, pra namorar ou pra transar, mantendo o pudor e o machismo dignos da burguesia do século XIX.

Eu vejo gente púdica. Todo o tempo. Do tipo que faz mil piadinhas sujas, mas não sabe falar naturalmente sobre sexualidade, vive cheia dos tabus e adora apontar a imoralidade alheia – feminina, óbvio. Gente que fala “é só sexo” como se fosse a relação mais desprezível do mundo e sonha com o romance que vai dar namoro/casamento, esse sim, socialmente aceitável. Um bando de homem enchendo a boca para falar que comeu e ainda chamando de vagabunda, como se sexo fosse desumanizante. Dama na sala e puta na cama, essa é a moral arcaica que esfregam na nossa cara o tempo inteiro.

Parece que quanto mais você expressa sua sexualidade livre, menos elegível se torna para o mítico “amor romântico”. O sexo está lá, como componente de qualquer relacionamento afetivo saudável, mas fica encerrado no privado, domesticado entre quatro paredes. Existe o famigerado “sexo com amor” e o resto é sexo com indiferença, quando não sexo com ódio, porque no fundo ainda pulsa aquela moralzinha cristã que marginaliza o prazer. Não adiantou expor o sexo ao máximo sem quebrar os velhos paradigmas, o resultado é uma sociedade que estimula a hipersexualização ao mesmo tempo em que condena, onde “mulher livre” e “mulher bem resolvida” ainda convivem com “mulher fácil” e “mulher rodada”.

 

Meu apelo como mulher e feminista é pelo romance pervertido, pela sacanagem fofa, pelo amor despudorado e sexo legalizado. Quero o sexo e o afeto inseparáveis, entrelaçados como os corpos, ora em êxtase, ora em repouso. Quero os elogios mais obscenos, a depravação mais carinhosa, palavrões e beijos saindo da mesma boca. Que toda libidinagem seja permitida, que qualquer abraço vire um convite, que quanto mais eu ame mais devassos sejam os meus pensamentos. Que o tesão e a ternura, enfim, vençam os séculos de perseguição e fiquem juntos para sempre, apadrinhados pelo respeito.

Por um mundo em que a sacanagem só venha no bom sentido, por mais gente safada, realizada e amando sem poder e sem pudor. Pela libertação sexual e afetiva das mulheres de fato, sem estigmas, sem o fantasma da repressão e o terrorismo da objetificação, sem a sombra do príncipe encantado e do cavalheiro. Por uma sexualidade livre para todas e todos, com respeito, afeto, empatia e muito amor – não aquele amor romântico idealizado, mas todas as formas de amar e se relacionar. Pela reconciliação entre sexo e amor, contra toda a opressão histórica que adoeceu a mente e condenou o corpo. Por fim, que abrir as pernas combine com abrir o coração – e seja tão admirável quanto.

Como ter uma auto-estima BADASS em um mundo que te convenceu a se odiar

7 dicas feministas testadas e aprovadas + uns bons links

Arte da Negahamburguer http://www.negahamburguer.com/

1) Desconstrua o mito da beleza
Ensinam as minas desde cedo que você pode ser bem-sucedida em tudo, mas se não for “bonita” segundo o padrão falhou na missão decorativa da espécie feminina. Auto-estima é sobre amar o que você é e tudo que você construiu, sua cultura, sua história, suas escolhas, seus princípios, seus gostos. Aparência é o último item da lista, é quando todo esse acúmulo transborda e toma forma, quando você adquire o controle do seu corpo e modifica, expressa, adorna e se comporta como quer — e aí sim, faz sentido enxergar sua imagem única e incrível no espelho.

2) Selecione pessoas e ambientes
O mínimo que você pode fazer por você é se cercar de pessoas que te valorizam, não adianta ser ultra empoderada e conviver com gente que esfrega dieta na sua cara, aponta defeitos irracionais no seu corpo/estilo de vida e vive neurótica com os estereótipos de gênero e toda a patifaria patriarcal. O lance é aprender a cortar relações e se livrar de lugares e gente tóxica, além de não dever simpatia pra ninguém que compactue com esses valores — quando for conveniente, confronto é uma ótima opção e fortalece.

3) Faça do prazer sua prioridade: amar o corpo é explorar ao máximo tudo que ele nos oferece. Quanto mais você se agrada e se permite, mais você adora a intensidade de estar na própria pele. Mastigar devagarzinho aquele brigadeiro, sentir a endorfina nas veias depois da atividade preferida, sentir a breja refrescando a alma e a mente, se contorcer inteira e não conter o grito naquele orgasmo fenomenal, se entregar ao conforto de um abraço, dançar loucamente o som que mais te representa. A gente cresce sendo reprimida e censurada e a maior prova de auto-amor é a liberdade.

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4) Extermine a comparação
A gente vive em uma selva de competitividade e a realidade é ainda pior pras minas, estimuladas a rivalizar e disputar atenção e aprovação masculina desde cedo. “Mais bonito”, “mais interessante”, “mais atraente” são conceitos relativos e o melhor nesse caso é se focar na autenticidade, e claro, jamais vincular a auto-estima à aprovação de alguém ou qualquer fator externo. Auto-conhecimento evita comparações porque revela nossa complexidade, a combinação única e inimitável de fatores que definem quem somos. E não precisa ser a criatura mais exótica do mundo pra isso, não se trata de ser “diferente”, sempre há aspectos singulares e mesmo um traço comum carrega marcas de uma personalidade exclusiva.

5) Busque seu melhor e aceite seu pior
Tem dias que você acorda se sentindo invencível e outros um lixo, e isso é normal. Sua auto-estima não é uma bosta porque você se sentiu feia, escrota, insegura e inadequada naquele momento, é mais uma parte de si que você deve abraçar. Buscar o máximo de coerência na sua vida e estar sempre evoluindo é essencial, mas enxergar as próprias contradições, hipocrisias e falhas é o que te faz humana. Conviver com a própria sombra, se possível fazer amizade com ela, ser a pessoa que vai te acolher nos momentos difíceis e entender aquela besteira que você fez sem pensar.

6) Reconheça a opressão
O fortalecimento da auto-estima é inevitavelmente uma tarefa individual, mas continuamos sob pressão social constante. Aí entra o feminismo desconstruindo os velhos papéis de gênero e todas as cobranças em torno de um ideal feminino ilusório e perverso. Mulheres seguras não podem ser controladas, daí os séculos dedicados a minar nossa auto-confiança e tornar qualquer traço de empoderamento motivo de vergonha e perseguição. Onde já se viu mulher satisfeita consigo mesma? Feliz com o próprio corpo e imagem? Segura do seu valor sem obedecer as regras? Inaceitável! Por isso a gente precisa tomar distância de algumas situações e entender essa opressão em um nível macro, estrutural, ao invés de se afetar automaticamente. Entendendo a origem e razões desse pensamento, fica mais fácil se proteger de ataques ao nosso corpo, moral e comportamento, resistindo a todas aquelas agressões pontuais e relações abusivas que desgastam a gente diariamente.

7) Procure informação de qualidade
Somos bombardeadas o tempo todo pelo discurso da ditadura da beleza, nossos corpos são patrulhados e a mídia tem um papel decisivo na propagação dessa violência. Jogue no lixo as revistas que te fazem sentir inadequada, feche o site que chama “Dieta, beleza e família” de sessão feminina, desligue a televisão que expõe, objetifica e ridiculariza mulheres a cada 5 minutos. Você pode substituir toda essa imundície machista, por exemplo, por alguns dos maravilhosos links sugeridos abaixo de conteúdo decente e empoderador para mulheres. Sua auto-estima agradecerá. 😉

Backlash: Desvendando o Contra-ataque Antifeminista

Texto originalmente publicado no Clit Zine, com a colaboração de Larissa Nunes, disponível para download em: 

http://issuu.com/celycouto/docs/clitzine_final

Definição comum de backlash: Reação antagonista a uma tendência, acontecimento ou evento.

 A partir da definição do termo backlash enquanto “reação contrária”, a jornalista e feminista Susan Faludi publicou o clássico “Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres” em 1991, nos EUA. Leitura essencial para feministas, essa obra analisa a onda conservadora que lutou para destruir as conquistas feministas da década de 1970, povoando os anos 80 de mitos que culpavam o feminismo pela suposta infelicidade das mulheres Americanas.

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O lançamento do livro foi um escândalo e acabou com a reputação de vários intelectuais, médicos e colunistas dos principais jornais e revistas do país, revelando fraudes e estatísticas distorcidas após uma pesquisa vasta e rigorosa. Susan decidiu escrever o livro em 1986, ao desconfiar de uma reportagem na revista Newsweek segundo a qual “É mais fácil uma mulher de 40 anos ser baleada por um terrorista que se casar”, e a partir daí encontrou as evidências de que precisava para denunciar os preconceitos e mentiras antifeministas que eram propagadas em áreas como jornalismo, publicidade, moda, beleza, livros, cinema, seriados de televisão, medicina, psicologia e políticas públicas.

 É incrível como Susan nos prova com documentos e análises minuciosas que o feminismo não foi o responsável pela angústia da mulher americana dos anos 80. Com altas doses de irreverência, ela deixa claro que não foi a “igualdade” (ainda não alcançada) que deprimiu as mulheres, e sim a gigantesca pressão para deter, e até reverter a busca feminina da igualdade. Os setores conservadores do país dividiram a vida das mulheres em duas: trabalho e lar, e então disseram que este último era o único caminho para uma existência completa e satisfatória. Quando as mulheres, obviamente, resistiam a essa imposição, rapidamente sofriam punições psicológicas e materiais – que mais tarde eram estrategicamente atribuídas ao próprio movimento feminista. Continue reading

Por que é tão difícil praticar o “amor livre”?

“Amor livre é uma proposta revolucionária que questiona os modelos disponíveis de amor construídos socialmente e historicamente, possibilitando que todxs possam criar novas formas de se relacionar, visando interações não-hierárquicas e de cooperação mútua – na contramão dos valores capitalistas de possessividade e exclusividade. Não existe um formato definido de amor livre, a ideia é justamente ter liberdade para construir novas relações com diretrizes próprias, o único princípio orientador do amor livre é a busca pela solidariedade ax próximx, o que explica sua origem entre pensadorxs socialistas e libertárixs.”

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Assim eu começo uma breve nota que tenta resumir um pouco sobre o conceito de amor livre, essa tentativa quase utópica de construir relacionamentos na contramão do destino monogâmico: formar uma família nuclear sustentada por um contrato de casamento e uma propriedade privada.

Sabemos que o amor é algo construído socialmente, que as formas de se relacionar afetivo/sexualmente foram muito diferentes em várias organizações sociais. Do formato grego, em que o homem não podia permitir a criação do vínculo afetivo com a mulher até os moldes do amor romântico tradicional que idealiza x outrx ao nível divino. Assim, tendo a noção de que é algo passível de transformação, nós, feministas e libertárixs, buscamos orientar nossas práticas afetivas de acordo com a organização social que desejamos – não hierárquica, horizontal e livre de opressão. Ao negar o modelo monogâmico e heteronormativo que é base do capitalismo e do patriarcado, abrimos novas possibilidades que muitas vezes se traduzem em relações abertas ou poliamoristas, nas quais não existe um contrato de exclusividade das práticas sexuais e afetivas fechado entre xs parceirxs.

Essas relações de “amor livre” podem ser muito diferentes entre si, podem incluir acordos específicos, serem parcialmente centralizadas ou totalmente horizontais entre um número variável de parceirxs, mas têm em comum a proposta de abrir o diálogo e encarar os desejos de perto, mediando a dinâmica da relação de forma que todxs se sintam livres e ao mesmo tempo exista o respeito aos limites do outrx. É uma negociação bastante complicada por si só, porque exige comprometimento ético, ao contrário da ideia de desordem que o senso comum dita sobre o assunto. A ausência de contratos de exclusividade não pressupõe a ausência de um compromisso com as demandas emocionais dx parceirx, pois assim voltamos à estaca zero do egoísmo já largamente perpetuada pelo amor romântico. Fugir desses paradoxos é uma das tarefas mais difíceis na hora de desconstruir nossos velhos modelos do amor burguês, que apenas admitem polarizações como matrimônio x libertinagem, sendo que a tal “libertinagem”, nesse caso, tem muito pouco a ver com liberdade e muito mais com a completa negligência das necessidades dx parceirx em uma relação – uma forma de precarização dos vínculos humanos que também não contempla o ideal libertário da cooperação e serve mais ao modelo capitalista.

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Mas a lista de obstáculos para a cultura do amor livre é muito mais extensa. Nossa própria forma de organização social é fundada no modelo do casal heterossexual burguês que ocupa uma propriedade privada fixa e garante as próximas gerações através da herança. Esse conceito de família como núcleo central de toda a sociedade já é um desafio e tanto a ser enfrentado, pois somos diariamente pressionadxs com o fantasma da marginalização caso não aceitemos o modelo vigente, convencidxs de que há uma idade limite para constituir tal núcleo sólido e que, se não o fizermos a tempo, temos um amargo destino de solidão e abandono pela frente. Acabamos psicologicamente frágeis diante de tamanha estrutura que nos esmaga, que é metodicamente pensada para nos empurrar na direção das relações monogâmicas. A jornada de trabalho diária exaustiva, a fragilidade das relações humanas em geral em um contexto de extrema competitividade, a tendência liberal da individualização, tudo colabora para que a maioria das pessoas ainda se encerre no refúgio particular do casal e idealize o amor romântico como um porto seguro emocional em uma realidade caótica. Ao tentar romper com a instituição do casamento, nos deparamos com uma sociedade que não está pronta para acolher novas maneiras de se relacionar, que torna nosso tempo e espaço para desenvolver mais relações com mais qualidade muito escasso, que nos incentiva a oferecer nossa dedicação a uma única pessoa e a projetar nossas necessidades nela – ou, no outro extremo, a nos relacionar com várias pessoas de forma extremamente superficial. Para a classe trabalhadora, a pressão para a relação de casamento é ainda maior por uma questão de sobrevivência econômica. E, considerando o fenômeno das famílias monoparentais na periferia, onde os homens abandonam o núcleo em busca de liberdade e deixam toda a responsabilidade familiar para as mulheres, chegamos ao outro fator que freia nossos anseios por relações mais verdadeiras: o sexismo.

patriarcadoClaro, o grande obstáculo do patriarcado. Anterior até mesmo ao capitalismo, é um dos maiores problemas a serem enfrentados pelos entusiastxs do amor livre, porque insere o elemento do poder na dinâmica das relações de forma desigual. A hierarquia de sexo/gênero que inferioriza as mulheres e garante privilégios aos homens afeta a todxs nós e se perpetua no nosso cotidiano, como uma forma de poder difuso e difícil de se combater. Historicamente, os homens sempre foram livres para se relacionar com várias parceiras, comumente prostitutas, enquanto as mulheres eram encerradas no ambiente doméstico como propriedades, no papel de esposas reprodutoras – quando o adultério feminino surge como resistência. Dentro da família burguesa, a sexualidade da mulher é controlada de todas as formas, garantindo que cumpra seu papel enquanto esposa fiel, responsável pela criação dxs filhxs e manutenção da casa. O mito do amor romântico legitima o contrato do casamento e assegura o modelo nuclear de família, às custas da repressão sexual das mulheres.

A dita “Revolução Sexual” trouxe alguns avanços para as mulheres, como a pílula anticoncepcional e o direito – em tese – de controlar a reprodução, mas ainda nos deixou muito distantes da utopia das relações igualitárias. No trecho abaixo, de um post que fiz recentemente, explico um pouco sobre a situação atual:

“[…]a sociedade aguarda ansiosamente por qualquer oportunidade de culpabilizar uma mulher por ter exercido livremente sua sexualidade, por ter sentido tesão, ainda que se venda uma falsa ideia de “liberdade sexual” e toda a classe média esteja contaminada com o suposto empoderamento das mulheres nesse sentido. A “libertação” sexual é estimulada, até um certo ponto, até que se possa manter o controle público sobre os limites da vida sexual das mulheres.

Ok, permitimos que vocês façam o que quiserem, mas arcarão com as consequências do sexismo ainda intocável que estrutura o pensamento, herança dos tempos mais brutais em que a libido feminina era crime – o pecado original cristão. Busque o prazer, os anticoncepcionais, as mil posições do Kama Sutra, o best seller de BDSM, mas saiba que em caso de gravidez indesejada o aborto é crime e vamos puni-la, em caso de sextorsão a culpa é sua por ter se exposto, em caso de estupro seu comportamento sexual será decisivo para culpá-la e durante o seu parto você será lembrada que “não gritou na hora de fazer”. Ouse escapar às regras e faremos você se arrepender do prazer que sentiu, se encher de remorso e culpa por cada orgasmo, porque, no fundo, tesão feminino ainda é exposto como motivo de vergonha no espaço público.”

Logo, ainda sofremos com o legado do pensamento patriarcal mediando as relações entre homens e mulheres – lógica também reproduzida nas relações homoafetivas. Estigmas tão arcaicos como o da “vagabunda” em oposição ao “garanhão” ainda estão fortemente presentes, reforçando a dicotomia puta x santa que regula a sexualidade das mulheres. Ainda chovem todos os dias casos de mulheres agredidas e mortas por companheiros que as enxergavam como propriedades e ainda são classificados como “crimes passionais” ao invés de femicídios. As denúncias de violência doméstica não param de crescer, os casos de estupro e abuso sexual são um fenômeno preocupante, o assédio nas ruas é constante e violento. O quadro é grave e não nos permite avançar na construção de relações mais livres enquanto não for duramente enfrentado.

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O primeiro passo é admitir que estamos contaminadxs, que não se trata de associação voluntária ao sistema capitalista e patriarcal opressor. É a nossa realidade concreta e temos que partir dela. Temos visto muitos exemplos próximos de relações com proposta libertária que desmoronam, justamente porque os velhos papéis sexuais estão tão internalizados que vêm â tona nos momentos de fragilidade. Ciúmes, mentira, possessividade são heranças difíceis de desconstruir e teríamos praticamente que recomeçar do zero a pensar nossas relações. Especialmente para os homens, o poder e o privilégio raramente são reconhecidos e problematizados. Vale lembrar que mulheres são criadas para esperarem um príncipe encantado e se dedicarem emocionalmente enquanto homens são criados para evitar vínculos afetivos e estigmatizarem a sexualidade feminina. Logo, é muito comum nas relações supostamente livres ver homens exercendo poder através da sexualidade, manipulando mulheres com quem se relacionam simultaneamente para que fiquem umas contra as outras, traindo a confiança da parceira mesmo com a liberdade do diálogo, restringindo o acesso da parceira a outros homens, entre outras incoerências e situações abusivas. Ou seja, homens e mulheres não partem da mesma posição de poder nas relações, por uma questão estrutural, logo, caberia a eles problematizarem seu papel quando se propõem a construir uma relação de amor livre.

É importante não cair na armadilha de substituir uma idealização do amor romântico por uma idealização do amor livre enquanto a incrível solução para nossos problemas de relacionamentos. Somos capazes de fazer a crítica sobre as relações que estão dadas, mas as belas teorias que criamos sobre as novas relações estão dentro de um longo processo de transformação radical da sociedade. Enquanto nos relacionarmos nesse contexto, somos reféns de muitas limitações e não podemos deixar de ser auto-críticxs. Não vale a pena pintar o amor livre com toda a sua poesia e não reconhecê-lo como parte dessa estrutura opressora que combatemos a todo momento, como se fôssemos poderosxs o suficiente para ignorar tudo o que nos enfiaram goela abaixo desde que nascemos, diariamente. Acredito que é preciso pautar e construir o amor livre urgentemente, mas sem essa pretensão revolucionária que parece brotar de egos gigantescos que se julgam libertxs de todas as amarras – aquelas mesmas que lhes garantem, muitas vezes, uma posição privilegiada – e ainda criam novos formatos dominantes. Qualquer proposta de relação, no nosso contexto atual, é incerta e vulnerável a uma série de problemas, ainda que estejamos lutando contra um modelo que concentra toda a opressão e o aprisionamento.

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Somos parte da merda toda, basicamente. Não é uma relação aberta aos trancos e barrancos ou um poliamorismo de 10 pessoas onde alguém se sente desconfortável que vão destruir os paradigmas heteronormativos, patriarcais e capitalistas que mediam nossos relacionamentos. É preciso pensar coletivamente a raiz dessas relações e como combater efetivamente os antigos modelos que nos assombram e nos atingem em cheio na primeira brecha, evitando o fetichismo sobre os formatos novos propostos. Porque, apesar de todas essas questões e desafios, o que não dá é para engolir ou reformar a velha tradição monogâmica burguesa e continuar dependente de escolhas tão precárias toda vez que há interesse em uma relação afetivo/sexual. Precisamos realmente do tal do amor livre, mas ele precisa ser livre para todxs, na prática.

Vagão para mulheres, sociedade para homens

Está chegando para votação no plenário brasileiro mais um projeto de lei que diz respeito diretamente a nós, mulheres. O PL 341/2005, de autoria do então deputado Geraldo Vinholi (PSDB), obriga que as empresas tenham espaço somente para mulheres durante os horários de pico do transporte público. À primeira vista, seria possível imaginar que o projeto foi concebido por uma feminista, já que propõe nos “proteger” da rotina diária dos abusos sexuais no transporte público lotado. Essa é uma realidade cruel que atinge principalmente as mulheres de classe baixa usuárias dos trens, ônibus e metrôs em um sistema de transporte precarizado. Quem é mulher conhece a sensação de entrar no vagão lotado e, além de suportar o aperto, permanecer alerta a qualquer movimento estranho que possa indicar uma tentativa de abuso. É com horror que nós aprendemos muito cedo a estarmos em constante vigilância contra agressores em potencial, que, ironicamente, enfrentam a mesma dura rotina e ainda se aproveitam da situação para cometer os abusos.

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Mas basta um olhar mais atento para perceber o objetivo problemático dessa medida: “Proteger as mulheres indefesas dos homens”. Dessa forma, estamos supondo e legitimando a ideia de que homens são sexualmente incontroláveis. Continue reading

FAQ 8 de Março

O Dia internacional das Mulheres está chegando e tem atividades feministas pra todo lado, mas muito comentário/piadinha sexistas e misóginos também. E tem desinformação, e tem perseguição, e tem aquele monte de cara chato que te dá parabéns ironicamente (ou não) e acaba com o seu dia. Aqui vai uma pequena contribuição, pelo menos pra colocar em pauta a discussão sobre a data.

Panfleto Anastácia Livre

Panfleto Anastácia Livre

 

 Por que não tem o dia do homem?

Porque é uma data “comemorativa” com uma função específica: fixar no calendário a memória de luta das mulheres. Isso porque existe uma longa trajetória de esforços para que as mulheres pudessem ter seus direitos mais básicos reconhecidos. Basta pensar que há poucos anos éramos consideradas propriedades de pais e maridos, economicamente dependentes e nossa única função social era reproduzir e cuidar da família, sujeitas a todo tipo de violência por nossa condição subordinada. Muitos grupos tem um longo histórico de luta pelo seu reconhecimento, mas com certeza os homens não enfrentaram nenhuma discriminação com base no seu gênero, por se tratar simplesmente do gênero dominante que sempre oprimiu “a outra metade” do mundo. O patriarcado manteve os homens em posição de autoridade, dominando a política e as ciências, detendo todo o conhecimento e restringindo o acesso das mulheres à esfera pública, é mais do que suficiente para relembrarmos aquelas que batalharam pelos seus direitos mínimos. Ainda temos muito trabalho pela frente em busca da igualdade, mas nada mais justo do que uma data que celebre as conquistas das mulheres e coloque o feminismo em discussão. Um dia do homem, como foco na sua condição de gênero, não faria nenhum sentido e seria inclusive uma afronta às mulheres que resistiram à dominação masculina, já que eles sempre contaram com privilégios sociais e nunca sentiram na pele o estigma do “segundo sexo” – pelo contrário, se posicionaram contra a libertação feminina. Continue reading