FAQ 8 de Março

O Dia internacional das Mulheres está chegando e tem atividades feministas pra todo lado, mas muito comentário/piadinha sexistas e misóginos também. E tem desinformação, e tem perseguição, e tem aquele monte de cara chato que te dá parabéns ironicamente (ou não) e acaba com o seu dia. Aqui vai uma pequena contribuição, pelo menos pra colocar em pauta a discussão sobre a data.

Panfleto Anastácia Livre

Panfleto Anastácia Livre

 

 Por que não tem o dia do homem?

Porque é uma data “comemorativa” com uma função específica: fixar no calendário a memória de luta das mulheres. Isso porque existe uma longa trajetória de esforços para que as mulheres pudessem ter seus direitos mais básicos reconhecidos. Basta pensar que há poucos anos éramos consideradas propriedades de pais e maridos, economicamente dependentes e nossa única função social era reproduzir e cuidar da família, sujeitas a todo tipo de violência por nossa condição subordinada. Muitos grupos tem um longo histórico de luta pelo seu reconhecimento, mas com certeza os homens não enfrentaram nenhuma discriminação com base no seu gênero, por se tratar simplesmente do gênero dominante que sempre oprimiu “a outra metade” do mundo. O patriarcado manteve os homens em posição de autoridade, dominando a política e as ciências, detendo todo o conhecimento e restringindo o acesso das mulheres à esfera pública, é mais do que suficiente para relembrarmos aquelas que batalharam pelos seus direitos mínimos. Ainda temos muito trabalho pela frente em busca da igualdade, mas nada mais justo do que uma data que celebre as conquistas das mulheres e coloque o feminismo em discussão. Um dia do homem, como foco na sua condição de gênero, não faria nenhum sentido e seria inclusive uma afronta às mulheres que resistiram à dominação masculina, já que eles sempre contaram com privilégios sociais e nunca sentiram na pele o estigma do “segundo sexo” – pelo contrário, se posicionaram contra a libertação feminina.

Mas porque tem que ter um dia específico pra isso?

Uma data comemorativa é mais uma estratégia de ação afirmativa, ou seja, faz parte das políticas públicas que garantem direitos a grupos minoritários, historicamente discriminados, em busca de igualdade social. Nesse caso, é fixada uma data que relembra um evento histórico representativo para a luta das mulheres, com o objetivo de resgatar sua trajetória e avaliar o quanto avançamos ou regredimos. É uma estratégia questionável? Sim, até porque hoje nós vemos a apropriação comercial de todas essas datas, é mais fácil encontrar artigos sobre lucrar mais no Dia da Mulher do que sobre o real significado da data. Mas isso não anula a importância da discussão e nos incentiva a retomar o sentido original do 8 de Março. Particularmente, eu prefiro encarar como mais uma oportunidade de tornar a questão pública e reacender o debate, sempre ciente de que corremos o risco de restringir a visibilidade para um único dia no ano, como se fosse pra cumprir agenda de movimento. Por isso a necessidade de insistir no tema durante todo o ano, se possível deslocando comemorações do tipo também para outras datas.

 Mas a mulherada só quer saber de ganhar presente, não acha?

  Infelizmente, no geral, é só mais uma data apropriada pela lógica capitalista, isso não é novidade pra ninguém. Existe o 8 de Março no que ele realmente respresenta, que está restrito muitas vezes ao pessoal dos movimentos sociais ou envolvido em algum nível com política, e o 8 de Março do senso comum. Obviamente é esse último que interessa na sociedade de consumo, até porque a história real do 8 de Março é anti-capitalista! Nada como transformar a memória de luta pela libertação das mulheres em uma oportunidade de vendas, mas isso não é exclusividade dessa data, absolutamente TUDO será engolido por isso nesse contexto. E as últimas culpadas por isso são as mulheres que querem ganhar seu presentinho, que enxergam isso como uma gentileza e recebem todas as felicitações por cumprirem seu papel feminino na sociedade – em uma data que, VEJA BEM, deveria contestar o papel feminino. Cabe a nós, pessoas preocupadxs com as desigualdades sociais, retomar a verdadeira função dessa data e combater a apropriação do capital, embora essa luta seja muito maior e esteja ligada a todas as perspectivas de uma realidade diferente.

Qual o problema em dar parabéns, entregar a rosa ou um presente?

Parabéns pelo que, presente pelo que? Essa é a grande questão. Claro que a gente não quer reforçar essa ideia de transformar uma data que é referência de luta em uma comemoração a nível pessoal, mas muito além disso, o significado dessas felicitações é problemático porque vai na CONTRAMÃO da proposta. Não se trata de “Parabéns pela trajetória de luta dos movimentos de mulheres, que você continue em frente pelos seus direitos!”, isso seria um cenário razoável, mas o que acontece de verdade é o contrário: felicitam as mulheres pelo seu papel atual na sociedade, que ainda é extremamente desigual. Parabenizam a gente por corresponder a uma ideia engessada do que é ser mulher: bonitas, sensíveis, boas mães e esposas… até os famigerados “independente e batalhadora” estão ligados a uma ideia de jornada tripla, da mulher que se mata pra cumprir uma jornada de trabalho fora e ainda cuidar da casa e dos filhos, sem divisão justa de tarefas, o que é considerado ideal hoje em dia. Apelam para o estereótipo mais tosco de feminilidade, reforçam os papéis de gênero que nos limitam, nos colocam como apaixonadas, dedicadas à família, lindas e sedutoras, a mesma porcaria de sempre. É interessante pra qualquer umx que esteja comprometidx com o fim do sexismo que não felicite as mulheres pelo papel que elas alcançaram, mas pela luta feminista que é mais atual do que nunca e necessária.

Mas ainda é necessário relembrar e prosseguir com a luta feminista?

Violência contra a mulher, divisão sexual do trabalho, precarização do trabalho feminino, criminalização do aborto, jornada tripla, disparidade salarial, tráfico sexual, ditadura da beleza… não são poucas as demandas que o feminismo ainda tem como desafio atualmente. Avançamos muito, mas ainda estamos longe da igualdade social de fato, que está interligada com outras lutas. O 8 de Março coloca em pauta todas essas questões, porque mais importante do que parabenizar pelas conquistas é ter um olhar crítico sobre elas, a quem beneficiaram, qual direção estamos tomando, quais serão as próximas estratégias. Como a própria data se origina entre as mulheres trabalhadoras, para mim, atualmente, é o momento de repensar o formato institucionalizado que o feminismo vem tomando e pegar firme na questão de classe, chegar onde realmente importa. Um bom sinal de que o feminismo é mais necessário do que nunca são essas mensagens incríveis de Dia das Mulheres nos resumindo a “presentes da natureza, pura ternura, lindas florzinhas”, isso porque a data é em memória de mulheres combativas, independentes e insurgentes – as trabalhadoras de Petrogrado.

 E essa história de Petrogrado? Qual a origem do 8 de Março, afinal?

A grande polêmica é que a história das trabalhadoras queimadas dentro da fábrica nos EUA, durante a greve, pode ser um mito. Eu, particularmente, dou crédito à versão da Renée Cote, que escreveu “O dia Internacional da Mulher – Os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março” (1984). Ela nunca encontrou evidências dessa greve, na verdade, houve uma mistura de fatos que geraram um mito, e a verdadeira origem do 8 de Março ocorreu entre as mulheres socialistas. Com a queda da URSS, foi politicamente mais interessante retomar a versão das operárias americanas do que dar o crédito às russas, assim a ONU e a UNESCO consolidaram o mito do 8 de março. A versão que eu acredito é a de que, em 8 de março de 1917, na Rússia, houve uma greve espontânea de tecelãs e costureiras de Petrogrado, que saíram às ruas pedindo pão e paz e contrariando a decisão do partido. Essa manifestação foi o estopim da primeira fase da Revolução Russa, como Kollontai escreve: “O dia das operárias, 8 de Março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a tocha da revolução”. Em 1921, na Conferência das Mulheres Comunistas, a data foi unificada como Dia Internacional das Operárias e mais tarde espalhada como comemoração da luta das mulheres pela 3ª Internacional. Desmistificar o mito do 8 de março não desvaloriza seu significado histórico, até porque as greves das operárias americanas ocorreram em vários períodos e merecem ser lembradas, na verdade a retomada da história verdadeira enriquece ainda mais o sentido dessa data, trazendo à tona o fato: o 8 de março nasceu das mulheres socialistas! E isso quer dizer que a luta das mulheres está diretamente ligada à luta contra todo tipo de exploração, que o 8 de março é libertário e que é, acima de tudo, o dia da mulher trabalhadora.

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