Manifesto feminista pelo romance pervertido

Há nem tanto tempo assim, cometeram o disparate de separar o sexo do amor. Demonizaram o tesão e santificaram o amor recatado, criando a oposição “fazer amor” versus “putaria” – tudo pela família patriarcal. O mundo avançou desde então, mas a tal Revolução Sexual dos anos 60 não foi suficiente pra libertar o corpo e a mente, não garantiu o direito à libido feminina e nem discutiu a questão da afetividade. Em pleno 2016, é normal a trepada na novela das 9 e o close na bunda, mas os homens ainda insistem no abismo entre sexualidade e afeto, separando mulheres entre santas e putas, pra namorar ou pra transar, mantendo o pudor e o machismo dignos da burguesia do século XIX.

Eu vejo gente púdica. Todo o tempo. Do tipo que faz mil piadinhas sujas, mas não sabe falar naturalmente sobre sexualidade, vive cheia dos tabus e adora apontar a imoralidade alheia – feminina, óbvio. Gente que fala “é só sexo” como se fosse a relação mais desprezível do mundo e sonha com o romance que vai dar namoro/casamento, esse sim, socialmente aceitável. Um bando de homem enchendo a boca para falar que comeu e ainda chamando de vagabunda, como se sexo fosse desumanizante. Dama na sala e puta na cama, essa é a moral arcaica que esfregam na nossa cara o tempo inteiro.

Parece que quanto mais você expressa sua sexualidade livre, menos elegível se torna para o mítico “amor romântico”. O sexo está lá, como componente de qualquer relacionamento afetivo saudável, mas fica encerrado no privado, domesticado entre quatro paredes. Existe o famigerado “sexo com amor” e o resto é sexo com indiferença, quando não sexo com ódio, porque no fundo ainda pulsa aquela moralzinha cristã que marginaliza o prazer. Não adiantou expor o sexo ao máximo sem quebrar os velhos paradigmas, o resultado é uma sociedade que estimula a hipersexualização ao mesmo tempo em que condena, onde “mulher livre” e “mulher bem resolvida” ainda convivem com “mulher fácil” e “mulher rodada”.

 

Meu apelo como mulher e feminista é pelo romance pervertido, pela sacanagem fofa, pelo amor despudorado e sexo legalizado. Quero o sexo e o afeto inseparáveis, entrelaçados como os corpos, ora em êxtase, ora em repouso. Quero os elogios mais obscenos, a depravação mais carinhosa, palavrões e beijos saindo da mesma boca. Que toda libidinagem seja permitida, que qualquer abraço vire um convite, que quanto mais eu ame mais devassos sejam os meus pensamentos. Que o tesão e a ternura, enfim, vençam os séculos de perseguição e fiquem juntos para sempre, apadrinhados pelo respeito.

Por um mundo em que a sacanagem só venha no bom sentido, por mais gente safada, realizada e amando sem poder e sem pudor. Pela libertação sexual e afetiva das mulheres de fato, sem estigmas, sem o fantasma da repressão e o terrorismo da objetificação, sem a sombra do príncipe encantado e do cavalheiro. Por uma sexualidade livre para todas e todos, com respeito, afeto, empatia e muito amor – não aquele amor romântico idealizado, mas todas as formas de amar e se relacionar. Pela reconciliação entre sexo e amor, contra toda a opressão histórica que adoeceu a mente e condenou o corpo. Por fim, que abrir as pernas combine com abrir o coração – e seja tão admirável quanto.

Advertisements

13 comments

  1. Kamilla

    Muito bom esse texto, entretanto eu fico sempre me perguntando para quem ou a quem isso serve? Outro dia estava vivendo esse clima maravilhoso e novamente me deparei com o contexto de gordofobia ( que esta atrelado a essa objetificação e supervalorização do corpo dentro da estetica machista). E isso machuca, claro… romance pervertido, eu quero/ Asssim como que seja para todxs.

  2. Saulo Mesquita Cerqueira

    Eu acho complicado, mas talvez não pelos motivos que você possa estar pensando. Acho que se expressar e se fazer entender é fundamental em toda relação, inclusive naqueles que se fundamentam no amor e principalmente num amor que surge entre duas pessoas “desconhecidas” que se desejam. Dentre essas formas com certeza temos o sexo, a putaria ou jeitos orgâsmicamente fuderosos de se demonstrar um amor ou gesto afetivo genuíno e puro, com total validade em sua causa. Porém gestos de amor assim não excitam somente as duas pessoas e sim todos em volta são afetados por aqueles gestos, convenhamos que até um casal de pessoas se beijando se destaca na multidão como se estivessem cobertas de luzes neon numa noite sem lua! (confesso, usei hipérbole, mas chama mais atenção pessoas se beijando do que alguém conversando num ônibus, isso é fato). Claro, existem jeitos e jeitos de se fazer isso, nenhum selinho tem tal efeito, mas a questão é o nível de sexo aceito em público, isso significa uma gama gigantesca de diferentes tipos de sujeitos e quem queremos atingir com nossas atitudes. No final isso é só uma consideração que quis colocar na reflexão que você teve e transmitiu a mim. Nossas comunicações sempre devem ser discutidas para sejam efetivas, ainda mais quando se trata de algo tão importante quanto nosso alicerce emocional. Parabéns pelo Post!

  3. Daniela

    Que texto incrível. Uma das coisas que o feminismo me trouxe foi a libertação de um relacionamento abusivo e a descoberta do sexo como essa coisa maravilhosa que eu sabia que existia, mas achava que não era pra mim, porque eu não me achava merecedora do prazer, transava para satisfazer, mas não me satisfazia. Tudo por conta de três décadas sofrendo com a gordofobia (a dos outros e a que eu coloquei na minha cabeça). Findado esse relacionamento, eu finalmente comecei a descobrir que eu também poderia ter prazer com o sexo. Ainda estou me descobrindo. E aos poucos descubro cada vez mais e me gosto cada vez mais. Libertador.

  4. Lilia

    Concordo. Muito bom o texto. Acho também importante que se tenha clara a distinção entre o público e o privado. Romance pervertido é tudo de bom, desde que não em público.

  5. Fred Ermel

    Queridas(os). O sexo nada mais é que a expressão física, corporal do amor em primeiro grau. É o caminho para o desabrochar da sensualidade, do carinho, da ternura, companheirismo, etc… entre dois seres que se descobrem envolvidos num relacionamento muito próximo e íntimo. E é humanamente impossível separar essa vibração transcedental ao sentimento que é o gozo daquilo que se poderia considerar como a emoção supra racional, que enleva o amante a níveis extasiantes e incompreensíveis à mente do ser humano.
    Por conseguinte, mesmo o sexo praticado mecanicamente, atinge – na hora do gozo – um patamar emocional inexplicável que se distancia em muito do simples “prazer”. Eis o porquê da singularidade desse sentimento. Pratiquem, pois o gozo e não o sexo.

    • alice

      oooooh, chegou o dono do caminho, da verdade e da vida, para nos esclarecer a ~elementar~ essência do sexo, tão profunda e simples, mas que jamais alcançaríamos sozinhas. obrigado, macho, por nos libertar.

  6. Juliana

    Muito FODA esse texto! Cresci ouvindo coisas bizarras como “quando uma mulher perde a virgindade os homens conseguem saber porque os olhos da mulher perdem o brilho e os homens vão repudiá-la”; “em homem não pega nada!”; “já sabe, né? mulher que não tem peito e bunda não casa!”; “mulher tem que ser bem puta na cama”; “não se nega água e nem boquete”…etc etc
    O patriarcalismo criou artifícios para fazer a mulher recuar e não ter muitos parceiros, pq assim ela vai morrer pensando que sexo de má qualidade é o que há. Lamentável.

  7. Ela

    “Meu apelo como mulher e feminista é pelo romance pervertido, pela sacanagem fofa, pelo amor despudorado e sexo legalizado.”
    Que belo conceito – Romance pervertido – acho que resume o que procuro alcançar nas minhas aventuras, sexo livre mas com carinho pelo outro. Se não existir qualquer sentimento torna-se vazio.

    Saudações de Portugal
    Beijo

  8. Pingback: 05 de março de 2016 | Diários de uma Mulher Livre

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s