Tagged: anarcafeminismo

O feminismo “business” não me representa

CEO

“Ele me perguntou qual a minha posição preferida, eu respondi: CEO.” Essa frase é propagada por feministas na internet, como resposta aos homens que só enxergam as mulheres pelo olhar sexualizado. O recado é que trocamos a posição sexual pela posição de líderes de grandes empresas, assim como é fácil encontrar palavras de ordem que inspiram mulheres a serem chefes, perseguirem os altos cargos em suas carreiras e ganharem destaque como empresárias, na contramão das expectativas de algumas décadas atrás que encerravam o destino feminino no espaço privado.

O cenário justifica esse tipo de ativismo: nunca houve tantas mulheres em cargos de nível hierárquico superior, mas os salários continuam inferiores se comparados aos homens em mesma condição. O caminho também é mais difícil, elas precisam provar duplamente sua competência, conciliar responsabilidades do trabalho com os papéis de esposa e mãe e reproduzir a “masculinidade” típica e agressiva do corporativismo. Com um porém: “Elas” são as mulheres de classe média e alta, a minoria, em contraste com o fenômeno de feminização da pobreza que aumenta no país.

Enquanto as grandes revistas femininas vendem o “feminismo business” entrevistando líderes poderosas de Louboutin, cresce o número de domicílios chefiados por mulheres na periferia. Elas são abandonadas pelos companheiros e se tornam responsáveis pela criação dos filhos, muitas vezes recebendo salários precários em subempregos – quando conseguem a vaga, já que o mercado de trabalho discrimina mulheres grávidas e mães.”Foi difícil vencer o machismo para chegar onde cheguei”, afirma a nova vice-diretora de uma multinacional, contando no parágrafo seguinte como confia no trabalho da sua empregada doméstica e da babá. A ascensão dessas mulheres só é possível transferindo o trabalho doméstico para suas semelhantes de classe menos favorecida, em sua maioria negras e periféricas, uma clara herança escravocrata da elite brasileira.

POWRFUL

As mulheres que realmente precisam do feminismo para sobreviver, para vencer uma jornada tripla exaustiva que inclui horas no transporte público, um emprego mal-remunerado, acúmulo das tarefas domésticas e cuidado da família, aparecem em uma ou duas linhas da matéria inspiradora sobre a trajetória de uma mulher de negócios. Líder nata, ao lado dos homens mais importantes, impecável no seu tailleur Chanel e bolsa Prada, orgulhosa dos resultados do último ano que dobraram os lucros da companhia, essa mulher ocupa um lugar de poder antes exclusivamente masculino – mas esse é um avanço feminista?

Já assumimos que a mulher não é sujeito universal, que várias intersecções de classe, etnia/raça, orientação sexual e outras especifidades precisam ser reconhecidas. O patriarcado permanece como a estrutura sistemática que hierquiza os gêneros, legitimando a opressão do homem sobre a mulher, mas as mulheres experimentam essa opressão em realidades muito diversas. Não afirmo que a mulher bem-sucedida não sofra machismo, porque sofre, mas também reproduz opressão sobre outras mulheres e se apropria de privilégios tipicamente masculinos. A lógica das corporações é produto da mente masculina, o poder é historicamente masculino, logo, para crescer em um território de homens, é preciso se adaptar à dinâmica hierárquica e exploradora que mantém a engrenagem do capitalismo.

Chamo de “feminismo business” esse apelo à tomada dos lugares de poder pelas mulheres sem criticá-los, a repetição da mesma fórmula que produz desigualdades em toda a sociedade, a celebração de algumas mulheres líderes em um sistema que oprime todas as outras. Acredito em um feminismo que transforme os lugares de poder e não somente divida a mesa de reunião igualmente entre homens e mulheres. Sim, reivindico um feminismo libertário, que não se contenta com o empoderamento da mulher branca de classe média, ainda mais reproduzindo a construção da masculinidade competitiva, agressiva e dominadora. Se bastasse ser mulher no poder, Tatcher seria um grande exemplo de admiração – a mulher que afirmava que a sociedade não existia, apenas famílias nucleares, a dama de ferro do neoliberalismo.

STANFORD

Me preocupa que tomem como exemplo feminista uma CEO (Chief Executive Officer) voraz por lucros, uma acionista implacável, uma executiva no topo da hierarquia que explora o trabalho de milhares de pessoas – muitas delas mulheres em cargos precarizados. Quando dizemos que feminismo é sobre “igualdade entre os gêneros”, não estamos querendo apenas que as mulheres conquistem seu espaço pré-determinado em um mundo construído por homens, baseado no conceito de masculinidade (competição, autoridade, abuso), queremos que as mulheres TRANSFORMEM esse mundo. Como sujeitas inferiorizadas na história da humanidade, o famoso “segundo sexo”, nos empoderamos através do feminismo para desconstruir e reafirmar o que significa “ser mulher”, especialmente ser mulher trabalhadora, negra, periférica, bissexual,lésbica, trans, indígena – as identidades mais vitimadas pelo apagamento e opressão.

O exemplo da mulher corporativista bem-sucedida é constantemente encorajado pela mídia hegemônica, justamente porque ele serve ao modelo patriarcal e capitalista ideal. A heroína do neoliberalismo é “multi-tarefas”, aliada ao marido que também é do universo business, concilia sua carreira brilhante com a administração do trabalho doméstico feita por mulheres mais vulneráveis, cumpre seu papel de esposa atraente e bem-resolvida sexualmente (leia-se, treinada pelos tutoriais de como agradar seu homem na cama da revista Nova), consome moda, arte e cultura e ainda consegue ser mãe (ou patroa da babá, normalmente). E essa mulher também consome feminismo, aquele que já aparece nos workshops de grandes tendências do mercado: mulheres no poder, liberdade para vestir o modelito mais polêmico da grife, autonomia para dar a última palavra na reunião, desenvoltura para comprar uns brinquedinhos na boutique erótica.

CapitalismAndTheExploitationOfWomen

Cooperação, cuidado, empatia, respeito e sensibilidade sempre foram valores atribuídos às mulheres, de forma arbitrária. Mas para além da construção da feminilidade, são valores que deveriam ser prioritários para qualquer ser humano, independentemente do gênero. São diretrizes para a transformação social, por um mundo mais justo e humano, daí a importância das mulheres nos movimentos sociais e sua contribuição histórica nos processos revolucionários. Meu feminismo evoca esses valores e combate a ideologia dominante, recusa as instituições e a tirania típica do que foi determinado como “masculino”, perfeitamente representadas pelo universo “business”.

Não seremos as próximas “patroas”. Por um feminismo com consciência de classe, capaz de enxergar além do próprio umbigo e reconhecer as demandas de todas as mulheres. Por um feminismo popular de fato, que revolucione, que conteste as estruturas de poder, que crie novas formas de expressão e identificação no feminino, que destrua todos os estereótipos e rejeite o status quo. Por um feminismo insurrecionário de fato, não um novo lifestyle na vitrine pronto para ser consumido ou uma geração de mulheres brancas workaholics orgulhosas do prestígio no escritório. Mais auto-organização, menos corporação.

Advertisements